quarta-feira, 6 de maio de 2026

O fanfarrão

 Um jovem professor de inglês, de aparência extrovertida e sorriso constante. Bem vestido, com um ar vaidoso. Alto, magro e um pouco musculado. Daqueles que frequentam um ginásio porque é moda. Um fanfarrão!

— Posso? — perguntou, sorrindo, ao homem que conhecia de vista. Ambos frequentavam o mesmo café e quase sempre à mesma hora.

— Claro! Já que puxaste a cadeira, sente-te à vontade para te sentares — respondeu Alberto. Rapaz de trinta e dois anos, estatura média e um ar de quem é apenas o que é.

— Estás a beber café simples? Eu quero um café com chocolate. É uma bebida com classe. — Aqui entre nós, as mulheres gostam quando me veem beber café com chocolate — expressou Cristiano. Ria. Por vezes, dava a sensação de que o fazia não por vontade própria, mas para mostrar os dentes extremamente brancos.

O outro não respondeu. Tagarela como era, o jovem professor continuou a falar:

— Na empresa da minha mãe, há corrupção. É uma empresa de donativos, e o dinheiro das doações está a ser desviado pela dirigente. A minha mãe quer que eu telefone de uma cabine e faça uma denúncia.

— Por que não o faz ela? — perguntou Alberto, franzindo a testa numa expressão de dúvida.

— Tem de ser uma voz de homem. — Para disfarçar, estás a ver... Para homem, estou cá eu — disse, rindo e fazendo uma breve vénia com a mão direita no ar.

—  E o teu pai, o que diz sobre isso?

— Ele diz que corro perigo se vierem a descobrir que fui eu — respondeu Cristiano, dedilhando sobre o tampo da mesa uns pequenos sons musicais. Os dedos brancos e compridos denunciavam um nervosismo estudado.

— Podes dizer que não à tua mãe. Acho que isso é um problema de quem lá trabalha — retorquiu Alberto, analisando, disfarçadamente, a dança musical dos dedos do outro.

— Mas, se eu fizer a vontade à minha mãe, ela oferece-me uma casa.

— Como assim?

— Sim, ela tem várias casas na China. Uma herança de família.

— Hum! Situação difícil.

— Tenho um fantasma em casa — declarou Cristiano, mudando de assunto.

— Ilusão tua!

— Ele troca o lugar dos objetos. De vez em quando sinto um ar gelado pela casa.

— Que medo! Quem pensas que será?


— Não sei. Tenho umas peças antigas. Muito valiosas, sabes? Para mim, decoração resume-se a coisas caras. Acho que é um soldado romano. Tenho um capacete que pertenceu a um comandante romano e, por quatro vezes, quase me acertou na cabeça. Ele está por cima do sofá da sala. Eu, sossegadinho a ver televisão, e ele, cá pum… pás…

— Muda-o de lugar. -- Gosto do lugar onde está. Está bem visível para quem entra na casa. Que hei de fazer?

— Vende a casa.

— A casa é da minha irmã.

— Pensei que fosse tua. Pelo modo como te ouço falar dela… e por certas conversas que já apanhei… sempre pensei que eras o dono da casa.

— Olha, uma noite ia a conduzir na estrada que vai para Banff, depois de Calgary… de repente vi um anão à beira da estrada. Sério! Vestido com a bandeira americana! Bracejava, bracejava. Parecia querer que eu parasse. Como estava cansado, parei e dormi duas horas. Depois segui viagem e tudo correu bem.

— Ah! — balbuciou o outro, sem tempo para se refazer da mudança de assunto.

— Sou perseguido por um homem. Ele pensa que sou amante da mulher dele.

— Ah! És? — exclamou Alberto, tentando acompanhar o ritmo de aventuras de Cristiano.

— Nada sério. Apenas, estás a ver, elas atiram-se a mim e eu não digo que não.

— Sorte a tua. Como se chama ela?

— Cristina.

— Loura ou morena?

— Morena. Mora no sul da cidade. Por vezes ela vem até ao norte. Estás a perceber, não estás?

— Perfeitamente, perfeitamente. Como te persegue esse homem? Já lhe viste a cara?

— Não, não! Manda-me mensagens anónimas. Ameaças. Nem sei como é que ele conseguiu o meu número. Ela diz que tem sempre cuidado. Um dia, com tempo, conto-te as histórias que me acontecem. Nem vais acreditar!

— Vou, pois!

— Sério? És dos meus. Certas pessoas pensam que estou sempre a inventar.

— Também tenho uma história para contar. Já que gostas de histórias, queres escutar a minha?

— Força!

— Mas tens de acreditar. Promete.

— Prometo.

— Sou o fantasma que te persegue.

O jovem professor olhou-o atónito. Depois, desatou a rir:

— Essa foi uma piada. És engraçado.

— Não acreditas? Queres ver que não tens nenhum fantasma em casa? Tenho ainda outra história.

— Mas desta vez vais falar a verdade.

— Vou. E tu vais acreditar.

— Conta lá, ó brincalhão.

— Olha, brincalhão, sou o marido da tua amante. O fantasma que te persegue, não pela casa, mas pelo telemóvel.

— Não... não pode ser — respondeu o jovem fanfarrão. O pescoço encolheu-se-lhe entre os ombros. Fora-se o vigor e a soberba postura.

— Pareces perdido! A Cristina, que mora no sul e que é morena, não existe?

— Existe, claro que existe! Pensas que sou algum gaba-rola ou quê?

— Pronto, assim fico mais descansado. Não quero ser injusto, nem quero dar um murro no tipo errado.No dia seguinte, na escola, todos queriam saber o que tinha acontecido.

— Nem imaginam! Fui assaltado. Deixou-me a cara negra, mas ele ficou pior. Parti-lhe um braço, chamei a polícia. Foi preso!

— Olha, vou beber um café onde costumas ir. Acompanhas-me? — perguntou-lhe um colega.

— Ah, não! Deixei de gostar do serviço desse café. A última vez que lá bebi café, sabes o que vinha na chávena? Desfiou mais uma história. Histórias! Viviam em ebulição no seu sangue. Histórias apenas sobre mulheres é que nunca mais contaria. Não queria voltar a levar um murro por algo que não tinha feito. Que coincidências estranhas tem a vida!

Porque tinha que existir uma Cristina morena, que vivia no sul da cidade e que traía o marido?


Ada Abaé

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