quarta-feira, 25 de março de 2026

Lutas invisíveis- Ada Abaé- conto

     


    A casa parecia cheirar apenas a água a ferver.
    Tem cheiro, a água quando ferve? Neste caso, sim. As bolhas libertavam o cheiro da pressa. Saltavam, ansiosas por transformar as batatas em puré. Entre os meus dedos da mão esquerda, um pobre tubérculo gemia, enquanto a direita manejava a faca e o atingia com duros cortes. A poesia... ah! A poesia, ficara à minha espera. "Que espere por melhores horas" — pensei. Naquele momento, a poesia era outra; a dos tachos, à luta com o meu cansaço. Mais um pouco, o derrotado tubérculo seria um vaidoso puré de batata nos pratos, que já esperavam na mesa.
    Os convidados estavam ausentes. Encontravam-se na sala ao lado, mas ausentes. Eles não demonstravam nem um pingo de curiosidade. Se assim fosse, teriam movido a cabeça, enquanto eu desabafava o meu cansaço, batendo com mais força do que o necessário com a colher de pau nos ombros do tacho que suava a bom suar. E o pobre pano da cozinha? Convertido a rodilha, experimentou a força de uma mulher aborrecida.
    Sempre gostei de cozinhar, mas nem sempre nos momentos em que os outros me querem na cozinha. A poesia esbracejava noutro universo, impaciente que eu lhe desse autorização de se manifestar. "Que coisa! A poesia também precisa ser paciente! Não?" Ela segredou-me que não. Desabafou: "A espera aniquila-me".
    Agora comam que eu vou escrever — senti vontade de dizer. Contive-me, sentei-me na mesa.
A poesia brincou de rio dentro do meu copo, de água e de jardim na jarra de flores. Nem me deixava     mastigar. Nunca ansiei tanto que todos terminassem de comer. "Ah, mas depois de todos satisfeitos, quem arruma os pratos sujos?" — pensei, levantando-me. Os pratos tremiam de medo nas minhas mãos. Elas quase os afundavam no pobre caixote do lixo, que por pouco não se engasgava, tal era a velocidade e a fúria com que o forçavam a engolir os restos deixados pelos convidados.  A poesia, essa coitada, já desaparecera. Ocupara o seu lugar, a desilusão, por eu mesma ter-lhe feito o funeral.
    Quatro horas a remexer-me na cama, a tentar chamar o sono — em vão. Ele decidira ficar de folga, desistira de mim. Inquietava-me a imagem da poesia a remexer-se no túmulo.
    Levantei-me e, com todas as minhas forças, busquei a pá decidida a desenterrá-la. Não havia outro caminho. Quando a libertei, derramou-se em queixumes. Que poema triste ela escreveu! Mas, depois de terminado, senti-me renovada! Que doce refrigério na minha alma, poder desabafar num poema o que gostaria que os outros entendessem sem que eu falasse.
     O mundo familiar está cheio de botões secretos. Alguns nunca chegam a ser acionados. O amor enferruja constantemente na fechadura da porta. Por vezes, espreita, quase pergunta se pode entrar, mas depois, encolhe-se; lá dentro, o dever ocupa toda a casa. Uns esperam sentados, iguais a convidados que não conhecem os cantos da casa, que alguém cumpra o dever e esse alguém transpira, convencido de que tem de dançar a valsa dos outros e de suportar o mundo no seu dorso.



Sem comentários:

Enviar um comentário

Gratidão por estar aqui