domingo, 12 de abril de 2026

O OUTRO - Silvia Reis

 
    Com uma capa preta por cima da camisa usei minhas artimanhas para atravessar a praça e chegar ao supermercado. Havia de ter sobrado alguma coisa que se pudesse comer depois do saque.  
    As lâmpadas dos postes de iluminação pública estavam apagadas e somente policiais circulavam na madrugada, com lanternas potentes, vigilantes. Mas foi fácil entrar pelas vidraças quebradas do prédio.
    Naquele silêncio tumular era previsível meu sobressalto quando escutei o barulho. Fui para trás de um balcão frigorífico, talvez da salsicharia. O cheiro da podridão era insuportável. Tinha muita comida estragada ali e os ratos deviam ter descoberto antes de mim.  
    Mas o som dos passos pesados não se confundia com o pisar ligeiro dos ratos. Era alguém tateando na escuridão. De repente uma luz brilhou, atrevida. A silhueta enegrecida do homem com um isqueiro na mão se desenhou na penumbra.
    — Apague isso agora! — murmurei de trás do balcão — Quem é você?
    O outro deu um salto para trás, desequilibrou-se e caiu sobre o montante de detritos espalhados pelo chão. Um caco de vidro fez-lhe um corte no cotovelo e seu sangue começou a jorrar como uma cascata. Nisso, eu vi um trapo caído perto de mim. Peguei e entreguei-o ao outro. Ele enrolou o braço estancando o sangue.         Movendo-se lentamente sentou-se ao meu lado e perguntou:
    — Nem me reconhece? Vou refrescar sua memória. Carneiro. Esse nome não te diz nada?
    Claro que dizia e ele não me era estranho. Minha memória cheia de imagens nubladas esforçou-se para compor uma estrutura linear do passado. A voz do outro era irritante e me pareceu a única coisa que eu devia recordar dele. Tinha a arrogância natural de quem se julga superior aos outros. Ele não estava ali senão para procurar comida, como eu. E não me admiraria se ele me roubasse o pedaço de presunto que eu mordia, mesmo se eu lhe dissesse que tinha um gosto amargo.
    — Eu não quero falar — disse eu mostrando que eu não tinha obrigação de explicar sobre o que dizia respeito apenas a mim..
    — Estamos em guerra — disse Carneiro abrindo a garrafa de vodka que restava inteira.    
    Aquele homem delirava. Eu já tinha ouvido falar que certas pessoas criam situações imaginárias para fugir de uma realidade que implacavelmente lhes reitera a crueldade da vida.
    — Estamos no meio de uma epidemia.
    — É uma guerra — reafirmou o outro. — E você perdeu a batalha, não foi?
    Dobrei o torso como se tivesse sido atingido por uma comoção violenta. Peguei a garrafa de vodka e cheirei o líquido límpido, protegido da sujeira ao redor. Passei a língua nos lábios. Eu não beberia. Não faria sentido beber ali na companhia de um desconhecido, alguém abandonado a um terrível amargor como o último sentimento que lhe restava.  
    — Você está vendo coisas — disse eu tirando a capa.
    — Você viu coisas!  — replicou o outro. — Você viu a imprensa tocando o terror na população com informações falsificadas a serviço da quadrilha de bandidos que está no comando da Nação. Você achou que fazia parte da quadrilha que ganhou a batalha?
    — Eu só estava fazendo o meu trabalho — eu disse detestando me justificar para aquele maluco.
    — E assistiu a tudo como se fosse o Diabo assistindo a uma crucificação! Era esse seu trabalho?
    A voz mole do homem começava a me enjoar trazendo um leve torpor ao meu corpo, mas apavorei-me quando ele voltou a acender o isqueiro.
    — O que está fazendo? — perguntei alarmado. — Quer nos denunciar? Não devia nem estar usando uma camisa branca.
    — Você quer se denunciar. Está ansioso para falar. Quer falar da farsa do julgamento. Você viu quando o ministro humilhou todo povo sem dar uma palavra. Mas você não se importou porque você não é povo, não é isso, Ernesto?
    — Como sabe meu nome?
    — Sei também que você é um covarde. Mas você não quer falar e por isso eu falo por você.
    — Eu não tenho nada a lhe dizer — afirmei depois de vomitar o presunto na camisa.  
    — Pode dizer que você nunca imaginou perder nessa guerra — Carneiro deu uma gargalhada muda. — Olha pra você agora! Você achou que seus generais não iam fazer nada contra você?
    — Eu era bom no que fazia.
O outro riu novamente, mas um riso nervoso, tenso, sarcástico.
    — E você via no espelho o seu brilhantismo. Você foi brilhantemente medíocre quando a mediocridade estava na moda, não é isso?
    — Eu era honesto — respondi sem convicção.
    — Quando o general disse que sua empresa era uma usina de poder, você aplaudiu honestamente, não foi?
Justifiquei-me já sem forças para esmurrar aquele verme fedorento.
    — Não posso me envergonhar disso.
    — Não se envergonha de colocar a culpa no povo por toda a desgraça que os generais de sua empresa lhe trouxe?
    — Mas não fiz nada contra o povo!
    — A não ser ajudar os generais a tapar-lhe a boca. Você se dava o direito de expor o povo ao ridículo, mas não lhe dava o direito de falar. Como se fosse dever de um povo civilizado ser massacrado sem reagir.
    — E por que acha que eu devo ouvir você agora?
    — Porque não vai encontrar ninguém mais para lhe falar.
    Devolvi-lhe a garrafa de vodka.
    — É melhor beber para não falar besteira.
    O outro virou a garrafa e bebeu mais dois grandes goles.  
    — Fala isso agora porque antes nunca sentiu nada entrar no seu...
    Naquele momento um ruído de passos reverberou no fundo do prédio em ruínas. Tive novo estremecimento, mas não me movi. Senti fraqueza. Uma luz atingiu diretamente os meus olhos cegando-me terrivelmente. Deixei-me deitar no chão. Então reparei as botas. Eram de um policial.
    — Levante-se! — ordenou ele severamente:
    — O outro — perguntei com esforço. — Onde está?
    — Não tem mais ninguém escondido aqui — disse o policial se agachando para espantar os ratos que me circundavam.
    — O outro — balbuciei quase desfalecendo.
    Um segundo policial chegou ao local e constatou olhando para mim:
    — Está delirando! É melhor colocar-lhe o tapa-boca.
    — Vomitou na camisa. Tem um corte profundo no braço e deve ter tomado quase meia garrafa dessa vodka — constatou o policial agachado.
O policial de pé deu ao colega o aparelho de identificação biométrica e ele focou minha pupila.
    — Ernesto Carneiro. Quarenta e dois anos. Jornalista. Divorciado, dois filhos. Será que é aquele repórter da televisão?
    O parceiro dele concluiu:
    — Não parece. Deve ser só mais um vagabundo que escapou do confinamento.

FIM

Papillon- Ada Abaé




  Nariz longo e afilado entre os olhos tristes e derrotados. Ossudas maçãs do rosto reprimindo questões esgotadas. O medo serpenteando-lhe o cérebro. Entre a chávena do café e os cotovelos, um papel branco. A mão esquerda segurando o queixo, enquanto a direita entorpecida pela rotina do trabalho fabril, desenhava um cavalo.
    Subitamente, viu o seu colo magro invadido por um cão de pequeno porte. Apesar do seu isolamento na esplanada barulhenta deixou que todo aquele pelo branco se acomodasse nas suas pernas. O cão colocando uma das patas sobre o papel, saudou:
    — Olá, fantástico homem.
    — Fantástico sonhador! O mais importante que faço na vida é olhar garrafas correndo numa passadeira. Sou um ridículo.
    — Se tu te achas um ridículo, ridículo serás. Um cavalo?
    — Rocinante? Talvez como Dom Quixote, conquiste a Dulcineia que almejo; ela quer-me herói. Queria tanto dançar com ela, mas ela diz que fico melhor a um canto. Nem dançar sei!
    — Estás grávido.
    — Quê?
    — De medo. Não te preocupes; é possível o aborto. Estou aqui eu.
    — Um minúsculo Papillon com orelhas de borboleta.
    — Cheio de vontade. Serve-te do que tens.
Francisco riu trocista. Papillon arreliado saltou para o chão, revirou os olhos, arreganhou os dentes e lançou-se ferozmente a um dos seus pés. Francisco assustado levantou-se e recuou.
    — Não recues homem, reage — rosnou o cão, atacando-lhe alternadamente cada um dos pés. Francisco aprendia a dançar. Adeus, vergonha; era urgente salvar os pés.
    Um acordeão aumentou a diversão. Viu, entre os espectadores, uma outra Dulcineia dançando.     Aceitava-o sem disfarces. Sorriu; os medos eram moinhos de vento.
    Papillon? Aplaudia dentro de si!